Queria descrever apego e amor, dizendo que podemos viver bem apenas com um ou, quem sabe, sem os dois. Poder deixar bem claro tudo que pode te levar a acreditar em uma coisa e ser outra, ajudar a ver o que eu mesmo demorei tempos para enxergar, mas parece que hoje não é o dia mais inspirador da minha vida.
Porém, como tudo, eu demoro muito para aprender. Talvez eu tenha um leve atraso mental que nunca foi identificado quando era mais jovem. Ou talvez só acredite demais nas pessoas. Mas qual o sentido de seguir uma vida quando não se pode arriscar confiar e amar? Mas por que amar logo de cara, quando podemos nos esforçar para tornar isso mais intenso? Mas se é esforço, talvez não seja amor, apenas comodidade. E se tudo isso é cômodo, por que continuar mentindo para nós mesmos que as coisas são apenas simples demais quando vão bem?
Não gostaria de dizer que amor é comodidade, mas talvez seja. Veja bem: o apego nos torna pessoas terríveis, sucessíveis a dor. E, claro, a dor machuca muito e tudo que nos machuca nos molda para as situações seguintes. Eu mesmo, depois de experiência recente, tenho me fechado um pouco mais para confiar nas pessoas e isso não é, nem de longe, uma das melhores coisas a fazer. Não é porque alguém mentiu, que todos farão a mesma coisa. Não é porque me enganaram que todas as outras pessoas do universo farão a mesma coisa, mas ao mesmo tempo: quem garante que não vão?
Quando você se apega a algo ou alguém, entrega tudo de si e segura com as unhas cravadas. Se engana quando pensa que é a coisa mais importante de sua vida e que não pode viver sem aquilo, porque... Nossa, o que vai ser de ti? Talvez, seja aí que perceba que o melhor momento da sua vida está chegando, ao se livrar de toda a merda que vem cultivando e abrir seus olhos para entender o porque de tudo até então ter sido tão errado e sofrido.
A primeira vez que li sobre Amor X Apego, foi em um artigo budista, onde era exemplificado que enquanto um te prendia o outro te deixava livre. Um te diz "me faça feliz" e o outro diz "seja feliz, seria bom se eu estivesse por perto, mas se não estiver, apenas seja feliz". Eu sou uma pessoa que vivia de apego. Me apegava fácil, me entregava rápido, vivia tudo na maior intensidade que se possa imaginar. Abria meu coração e meus braços para que as pessoas se sentissem bem e acolhidas, mas fechava minha mente quando ela tentava me alertar.
Descobri, ao longo do tempo, que tudo bem não estar bem, não dá pra forçar felicidade. Não dá pra dizer: hoje eu vou ser feliz e ninguém vai me impedir. Porém, aprendi também que não posso apenas ouvir meu coração quando tenho uma mente sadia trabalhando para me avisar dos perigos aos quais estou me expondo. Ao estar sempre aberta às pessoas, estarei sempre me machucando e me decepcionando, a toa. Por isso, aprendi a abrir meu coração com calma e segurar os instintos para que eu possa não apenas ser a melhor pessoa para alguém, mas para mim. Afinal, quem é que vai passar a vida toda do meu lado?
O apego nos força acreditar que não podemos viver sem alguma coisa, enquanto amor nos lembra que podemos e devemos. Devemos deixar que sejam livres e tenham suas vidas, afinal, como seres humanos individuais, nem tudo que interessa a um, interessa ao outro. Quis abrir mão de todo o apego que eu carregava na vida, não foi fácil, mas aprendi que estar por perto de pessoas que faziam eu me sentir pequena e fútil só porque as conhecia há muito tempo, não era o lugar para mim. Me afastei de tudo que me fazia mal para poder recomeçar minha vida da forma que eu julgar melhor, dentro de novas expectativas e aprendizados.
Aprendi que amar ou estimar algo nos faz acreditar junto. Nos deixa fracos em alguns momentos, mas precisamos sentir isso para poder aprender a controlar. Nem sempre é possível, mas a tentativa deve ser contínua. Devemos abrir mão de estar lado a lado para podermos entender que os objetivos diferentes nos levam a caminhos diferentes e precisamos abrir mão da ideia de posse, para saber que se acabar indo, era hora e precisamos aceitar. Nos cabe acolher, cuidar, ouvir, aconselhar, estar por perto sempre que possível. Nos cabe ser o melhor para o outro, mas sobretudo para nós e, acima de qualquer coisa, nos cabe buscar a felicidade sem que ela seja imposta.
No final das contas, aprendi que apego é uma grande besteira, que nos machuca e nos força acreditar que tudo aquilo que aprendemos é um romance sem fim. A ideia de não poder viver sem alguém, uma obra digna de Romeu e Julieta, bonito de se pensar, nada bom de se viver. E o amor? O amor para mim é simplesmente cômodo. Bom, gostoso, livre e leve, mas cômodo. Onde cômodo nos deixa livres ao mesmo momento que nos prende, afinal... O que é melhor do que não ter cobranças?
Segredos- Frejat
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